Premiere obriga operadoras a repensar TV por assinatura

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Heráclito de Éfeso já sabia, há mais de dois mil anos: só a mudança e o movimento são reais. A crise da TV por assinatura não surpreende quem tem ou já teve este serviço. Afinal, paga-se caro, muito caro, para contar com entretenimento de qualidade, sejam filmes, jogos de futebol, seriados, desenhos, documentários etc. Os pacotes engessados, contudo, não justificam o gasto mensal.

Um assinante fã de futebol, por exemplo, não pode contratar somente os canais esportivos para acompanhar os campeonatos regionais, nacionais e internacionais.
Ironicamente, as operadoras estão irritadas com a Globosat por oferecer este canal via Internet, sem operadora, diretamente ao consumidor, como registrou Mauricio Stycer. O nome disso é oferta de serviço e quem decide é o consumidor.

As operadoras de TV paga praticam venda casada. É só ler o que estabelece o Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 39: “É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:
I – condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos”.

A tecnologia vem transformando o mundo, com avanços inegáveis em áreas como saúde e comunicação, mas também com perdas de emprego, invasão de privacidade e outras consequências negativas. Não há mudança que só traga vantagens a todos.

A oferta de filmes e séries por streaming, como faz a Netflix, e de jogos como a Globosat, assemelha-se ao transporte por aplicativos (Uber, 99, Cabify); à hospedagem via Airbnb; e às fintechs que prestam serviços financeiros antes restritos aos bancos.
Ninguém cede o mercado a um concorrente com um sorriso nos lábios, obviamente. Mas a tecnologia vai quebrar paradigmas em quase todas as áreas, por mais que isto afete negócios tradicionais. A saída será a adaptação às novas condições de operação, o que ocorreu com a própria Netflix, que surgiu no final dos anos 1990 como um serviço de entrega de DVDs pelo correio.

Grandes livrarias brasileiras – Cultura, Saraiva – estão em recuperação judicial, na tentativa de se recuperar de dívidas que, somadas, totalizam quase R$ 1 bilhão. Não é fácil enfrentar disputar mercados com empresas que vendem e-books, livros digitais, por preços obviamente muito menores, pois não há custos de impressão, armazenagem e distribuição.

Se quiserem manter seu mercado, as TVs têm de investir em melhor comunicação com seus clientes. Agora mesmo, a VIVO tem informado que alguns canais sairão do ar, e não diz por quais serão substituídos. Só observa que o preço cobrado continuará o mesmo.

Maria Inês Dolci

in Folha de São Paulo

29.11.2018

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