Cuidado com o endividamento familiar
Pais devem aprender a não se endividar, e ensinar isso a seus filhos. Mensagem especial do Dia dos Pais.
Muito foi dito e escrito sobre o papel dos pais em uma sociedade que tenta ser menos opressiva e mais diversa. Isso se repete no Dia dos Pais, segundo domingo de agosto, no Brasil, desde 1953. É mais raro dizer que os pais e as mães deveriam ensinar aos filhos o consumo consciente e os cuidados para não se endividar.
No mundo capitalista, os estímulos são para comprar de tudo, inclusive associando bens e serviços à felicidade. é o caso das efemérides como o Dia dos Pais. É natural, portanto, que as crianças cresçam com vontade de comprar, pois quem não quer ser feliz? A infelicidade de dever mais do que se pode pagar, porém, é uma reflexão que contraria a relação compra-felicidade.
A educação financeira e para o consumo deveria ser associada, desde o começo do ensino público ou privado, à matemática. Mostrar, por meio das quatro operações – adição, subtração, multiplicação e divisão – que tudo que tem preço, valor financeiro, custa tempo de trabalho. E que somados os compromissos financeiros mensais – aluguel ou prestação, condomínio, energia elétrica, gás, telefone móvel, transporte, despesas com saúde e alimentação, impostos, educação e lazer –, a conta não pode ser maior do que o ingresso de dinheiro.
Se parece pueril demais esse tipo de texto, por que tantos adultos, muitas vezes com formação educacional superior, terminam o mês no vermelho? Por que 82% das famílias brasileiras estão endividadas, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) de julho último, divulgada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC)?
É óbvio que muitos talvez tenham perdido o emprego, o cliente ou o trabalho informal. Outro grande contingente enfrentou doença ou diversos infortúnios. Mas a maioria recorreu ao cartão de crédito como se fosse um guia para a felicidade. Sinto muito lembrar que não é.
A Lei do Superendividamento de 2021 atualizou o Código de Defesa do Consumidor (CDC) para que pessoas físicas de boa-fé (ou seja, que não tenham a intenção de lesar fornecedores) renegociem suas dívidas de uma maneira que continuem em condições de sobreviver.
Mas a lei e os programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola Brasil, atacam as consequências, não as causas do endividamento. Por isso, pais e mães, aprendam a não se endividar e ensinem a seus filhos. Será uma lição do Dia dos Pais que seguirá para toda a vida, que, no mínimo, evitará que percam o sono devido ao peso das dívidas.
Claúdio Consídera, Conselheiro da CONSUMARE
In, Estadão, 09.08.2026
