Consumidores endividados aguardam um Proer das famílias

Noticias

Em Alice no País das Maravilhas a queda enfrentada pela personagem parecia não ter fim. No mundo real, no Brasil, isso também tem acontecido com o consumidor. Fica claro que em 2023 os consumidores necessitarão de algum tipo de refinanciamento de dívidas pessoais, uma espécie de Proer – Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional – das famílias ou a situação ficará ainda pior. Um em cada quatro brasileiros, apurou a CNI (Confederação Nacional da Indústria), não consegue nem pagar todas as contas básicas do mês. Assim, acreditamos que os consumidores endividados aguardam um Proer das famílias.

O Proer foi adotado após o Plano Real para evitar uma quebradeira em cadeia dos bancos no país. Nesse sentido, também há o Refis (Programa de Recuperação Fiscal), para refinanciamento de dívidas tributárias ou não tributárias de pessoas físicas ou jurídicas para com a União.

Fica claro porque a economia não se recupera: quem deve, compra somente os produtos mais essenciais, como alimentos. E reduz, a cada ida ao supermercado, os itens colocados no carrinho. A pesquisa tem outras constatações terríveis, como a que 34% atrasaram conta de luz e de água, dois itens fundamentais para a subsistência.

Deixar algumas contas para o próximo mês, usar o cheque especial, pagar o mínimo no cartão de crédito – afundando no perigoso rotativo – e recorrer a empréstimos ou ajudas para pagar os boletos compõem um cenário lamentável de endividamento.

Como o cenário ainda é de inflação alta – embora nem de longe ameace se tornar o pesadelo de dois dígitos mensais, como no início dos anos 1990 –, até o fato de 44% contarem que conseguem pagar as contas, mas não sobrar dinheiro algum, representa grave ameaça. A renda familiar não aumenta, então esse aperto pode virar dívida ou incapacidade de comprar o essencial à vida.

A esperança dos que responderam à pesquisa, contudo, é explicável, porque eleições devem trazer novas expectativas para a economia. Mudanças terão de vir para que ossos, pele de frango, soro de leite, arroz e feijão quebrados, e refeições canceladas virem somente uma triste lembrança de dias muito difíceis.

A recuperação da economia passará, obrigatoriamente, pelo prato. Sem segurança alimentar, não há espaço para retomar o consumo de outros itens. Não adianta colocar a culpa na pandemia de coronavírus, na invasão da Ucrânia e na disparada dos preços das commodities.

Análise de culpados pela crise não soluciona as despensas vazias Brasil afora. Segurança alimentar tem de ser o primeiro compromisso de quem pretende governar o Brasil nos próximos quatro anos.

Maria Inês Dolci

In Folha de São Paulo, 09.agosto.2022

Deixe uma resposta