Queda do analfabetismo no Brasil também traz dados preocupantes

OPINIÃO

Há notícias que são boas e ruins ao mesmo tempo. O analfabetismo no Brasil caiu para 4,9%, menor taxa da série histórica. Ainda assim, 8,4 milhões de brasileiros não sabem ler nem escrever, em uma época na qual se discute o impacto da inteligência artificial em nossas vidas. Se essas pessoas vivessem em uma só cidade, ela seria a segunda maior do país, atrás somente de São Paulo.

Outros dados da PNAD Contínua Educação, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstram o peso desse percentual de analfabetismo. Mais de 57% dos não alfabetizados estão na região Nordeste do Brasil, na qual a taxa de analfabetismo está em 10,6%. A região Norte tem 5,7% de habitantes sem acesso à leitura e à escrita, bem acima dos 2,3% do Sudeste, 2,4% do Sul e 3,3% no Centro-Oeste.

Quase 60% dos analfabetos são pessoas com 60 anos ou mais. Nessa faixa etária, a taxa de analfabetismo é de 7,3% entre brancos, e de 20,6% entre pretos e pardos. Não saber ler nem escrever faz com que esses idosos dependam de terceiros, geralmente familiares ou amigos, para, por exemplo, acessar um aplicativo extremamente útil, como o Meu INSS. Ou uma central digital de serviços públicos, Gov.br.

Não é por acaso que idosos sejam mais sujeitos a golpes envolvendo aposentadorias. E que tenham dificuldade até para cuidar da saúde, embora atualmente haja muita informação sobre como se alimentar corretamente, praticar exercícios, não fumar etc.

Para tornar essa questão ainda mais relevante, quase 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, ou seja, leem algumas palavras, frases curtas e reconhecem determinados números. Novamente, a exclusão atinge mais idosos, pardos, pretos e indígenas.

Então, embora seja a primeira vez que o analfabetismo atinja menos de 5% da população, o peso das desigualdades regionais e da exclusão fica evidente ao detalharmos os números.

Nem seria preciso ressaltar que pessoas que não leem nem escrevem fluentemente também são mais sujeitas a enfrentar desrespeito nas relações de consumo. De que forma poderão saber os direitos estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC), sem ler seus artigos?

Enquanto aguardamos o Marco Civil da Inteligência Artificial, ainda convivemos com tamanha exclusão e desrespeito. Não há desculpa para tal situação.

Cláudio Consídera, Conselheiro da CONSUMARE

In Estadão, 22.06.2026

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